encontro de março: mulheres e cervejas

No encontro de março tivemos a casa cheia. Ocupamos todas as mesas e cadeiras do Hussardos Clube Literário, incluindo o famoso sofá de veludo vermelho. As presenças da Sofia Guimarães e das Lupulinas foram fundamentais para um final de tarde agradável, de opiniões francas e copos cheios. Na plateia, poetas, escritores, pessoal da TI, historiadores, advogados, curiosos e até quem trabalhe com o ramo cervejeiro.

 

Ilustração do paper “Female brewers in Holland and England” de Marjolein van Dekken.

A Mayara Miranda iniciou a discussão fazendo uma explanação histórica a respeito de nosso tópico do dia. Ela elegeu “o caso inglês” para discorrer a respeito do que se passou com as mulheres e a produção de cerveja: de detentoras únicas dessa arte, acabaram por não ter mais lugar na produção em 1600, o que é visível pelo desaparecimento de palavras como “brewsters” e “alewives” no idioma.

Ressalte-se que as mulheres vendiam cerveja, ou seja, não apenas produziam. Depois, até continuaram fazendo cerveja em casa (vide alguns manuais de prendas domésticas do século XIX), mas sem participarem da produção industrial.

Equipamento para brassagem

Equipamento para brassagem caseira, retirado do manual “The cook and housekeeper’s complete and universal dictionary” de Mary Eaton (1822).

A fonte principal da Mayara foi o livroAle, Beer and Brewsters in England: Women’s Work in a Changing World, 1300-1600 de Judith M. Bennett, que trata do caso da cerveja na história das mulheres durante a ascensão do capitalismo, tempos sensíveis de mudanças econômicas. Uma das hipóteses de Judith Bennett para a perda de poder das mulheres na produção da cerveja seria a inovação do uso de lúpulo, ingrediente germânico recém-chegado à Inglaterra, que acabou exigindo uma maior especialização na produção de cerveja e modificado hábitos de consumo.

De minha parte, mencionei rapidamente como as mulheres eram representadas em propagandas europeias de maneira voluptuosa e depois no pós-guerra nos Estados Unidos e aqui no Brasil. Mencionei o efeito do backslash nas propagandas ‘mais ousadas’ dos anos de 1980 e da mudança de posicionamento de algumas marcas nos anos 2000, que tentam trabalhar melhor com a questão gênero, como comerciais da Heineken e a “My name is Vladimir” da BrewDog, que ironiza as leis ‘anti-gays’ do Putin e os retrocessos, como a campanha racista da Devassa. Foram mencionados muitos outros rótulos: a Gordelícia, a Refrescandô de Safadeza, a Rogue, a Libertadora da Anner, a Tereza, etc.

Também tratamos da falta de protagonismo na indústria artesanal no Brasil – temos sommeliers (sommelière?) de primeira linha, como a Carolina Oda, Cilene Saorin, Kathia Zanatta, e outras talentosas, temos mulheres no marketing, mestre cervejeiras mas… temos uma mulher sozinha chefiando uma cervejaria? Se houver outra, por favor, nos dê (boas) notícias! Lembramos somente da Patrícia Mercês da Cervejaria Goyaz.

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O primeiro rótulo degustado foi a Camelot, uma lager feita pela Sofia Guimarães. Nosso projetinho sempre faz questão de trazer ‘cervejas de panela’ para privilegiar a criatividade dos produtores caseiros. A Camelot encantou o público com seu dourado, um aroma discreto e o seu gosto suave de malte. Um incentivo para quem quer fazer cerveja em casa! A Sofia contou como o marido e ela brassam no apartamento, alguns detalhes sobre as diferenças de se fazer lager e respondeu perguntas.

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A Sofia Guimarães e sua lager caseira.

Depois, passamos palavra para as Lupulinas – a Cilmara Bedaque e a Vange Leonel, responsáveis pelo blog na Carta Capital. Elas narram as viagens feitas a lugares “que tem uma cerveja boa”, como descobertas de cervejarias pequenas nos Estados Unidos e a ênfase orgulhosa que cada região concede a sua cerveja.

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Mayara Miranda, Ana Rüsche, Vange Leonel e Cilmara Bedaque.

Também falamos dos problemas que as microcervejarias encontram para concorrer no Brasil e da recém-formada Associação Brasileira de Microcervejarias (ABM), que deverá ser importante para pressionar mudanças legislativas. A parte bonita foi a comparação que encontros entre microcervejeiros se parecem muito com aquela vibe entre bandas de rock: “você não sabe que som eu tirei!” vira “você não sabe que eu fiz com esse lúpulo!”.

A segunda degustação foi a Amber Lady da Dama. Falamos da cervejaria, fundada em 2010 em Piracicaba, discutimos o desenho do rótulo, debatemos o que seria “uma cerveja para mulheres” (?) e bebemos. Dos aspectos sensoriais, falamos da drinkability e de caramelo, do estilo Munique e algumas germanices. Elogiamos a boa distribuição da Dama e mencionamos os perrengues que passamos para comprar míseras 12 garrafas de qualquer cerveja artesanal (ouvi um “o que você vai fazer com uma caixa dessa cerveja?” de um funcionário impressionado com minha solicitação no supermercado).

Terminamos o encontro da melhor maneira: tomando a Maria Degolada, a genial tripel da Anner! A Mayara contou um pouco da história de Maria Francelina Trenes, que foi morta degolada pelo namorado brutalmente e se transformou no folclore de Porto Alegre (os gaúchos presentes não nos deixaram mentir). Discutimos as dificuldades de distribuição de cervejas artesanais, falamos dos rótulos da Anner e… bebemos. Sem mais. Uma tripel maravilhosa, parabéns aos produtores.

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Amber Lady da Dama e a Maria Degolada da Anner.

No mais, na parte extraoficial do encontro, a Pilar Bu trouxe de Goiânia algumas garrafas da Colombina da Cervejaria Goyaz, feita por uma mulher, a Patrícia Mercês. Ah, participar da Hildegarda lá tem suas maravilhosas vantagens…

Nossa próxima reuniãozinha no Hussardos será a respeito de cheiros, gostos e harmonizações – então, trataremos de cervejas e chocolates. O coelho da Páscoa disse que vai dar o ar da graça.

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Queríamos agradecer novamente

às convidadas Lupulinas, por terem topado o convite sem frescura,

à cervejeira Sofia, por suas panelas, didatismo e disponibilidade,

à minha querida vizinha Cecília, por ter ajudado na logística do encontro,

à Francesca, ao Marcelo e ao Vanderley, por serem firmes no backstage dos Hussardos e aguentarem planilhas de custos erradas na segunda de manhã (nunca confiar em alguém de humanas nessa hora),

ao Ícaro e Laerte que seguraram algumas pontas,

às cervejarias Dama e Anner por serem gentis e atenciosas. <3

Crédito das Fotos: Ícaro Santos Mello, com exceção da foto miguxa abaixo.

pilar

da esq.: Cilmara Bedaque, Pilar Bu Lousa, Vange Leonel e Ícaro Mello miguxos. ;)

 

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